PARTE 4- Nazaré superação 

Esses últimos 2 anos foram de turbulentas emoções na minha vida, e digo, com certeza, que foi o período mais conturbado que vivi como surfista profissional de ondas grandes.

Realmente quase pirei quando tomei uma série inteira na cabeça e fiquei à metros de ser jogado contra as pedras do desfiladeiro de Nazaré durante o épico big swell de 2014.

Big SWELL de 2014. Rodrigo KOXA e Benjamim Sanches


Poucos sabem, mas tive pesadelos por 3 meses. Após aquele dia, acordava suado e assustado, me sentindo nitidamente desconectado, com minha autoconfiança abalada e com medo. Quando contava para meus amigos do ocorrido, meu corpo tremia…

Passei a pedir ajuda para minha mulher e minha mãe que são psicólogas. Eu sabia que não estava bem e que precisava de um suporte emocional, caso minha vontade fosse voltar a surfar ondas gigantes. 


E minha vontade era voltar a surfar onda grande?

Naquele momento eu não sabia mais, mas resolvi dar tempo ao tempo, pois precisava reorganizar meus pensamentos. Minha única certeza era de que a paixão ainda estava lá, e foi por conta dela que tracei um caminho para tentar recuperar a minha essência.

O primeiro caminho que percorri foi, depois de um ano inteiro, voltar para Nazaré com meu parceiro Vitor Faria para a temporada 2015. Lá permanecemos por 2 meses surfando diversos dias grandes no intuito de treinar e ir me fortalecendo mentalmente. No entanto, naquela temporada as ondas não estavam gigantescas, e apesar disso, me senti aflito nos dias maiores, com uma espécie de fobia pelo resgate do meu parceiro e querendo subir o mais rápido possível no jet ski, após cada onda surfada. 
Sim, eu estava surfando, mas morrendo de medo de tomar as ondas na cabeça novamente.

Rodrigo KOXA surfando uma grande em 2015.


Em nossa última semana em Portugal, um swell grande, não gigantesco, com ondas ali na casa de 20 a 25 pês, chegou em Nazaré. Eu estava surfando quando o Vitor veio me resgatar e eu vi que a onda de trás era grande. Fui tão afoito para subir no sled do Jet, com medo que ele me deixasse ali, que acabei luxando meu ombro esquerdo. O ombro saiu do lugar pela primeira vez na vida, e a dor foi absurda.

Voltei para o Brasil em dezembro sem poder mais surfar. Fui à médicos, fiz os exames necessários, mas a intervenção indicada, tanto pelos médicos, como pelo meu fisioterapeuta foi a cirurgia, devido ao rompimento do labro, que é o ligamento que segura a estabilidade do ombro. 

Com esta notícia a depressão quase me pegou, primeiro porque eu não podia mais surfar nem na marola, e segundo porque eu estava me sentindo muito distante do mundo que eu sempre pertenci e almejei. 

A opção cirúrgica também me incomodava e foi aí que eu e minha mulher começamos a pesquisar sobre opções alternativas que poderíamos ter.
Nos lembramos de uma amiga que nos contou sobre a cirurgia espiritual de sua mãe numa viagem que fizemos juntos há alguns anos atrás. Esta lembrança nos tocou e entramos em contato com ela. 

Em fevereiro de 2016 eu fiz uma cirurgia espiritual em uma casa de energia surreal e mágica, entendendo que eu, em particular, havia me machucado devido a estar vivenciando um desalinhamento emocional. 

Não sou uma pessoa religiosa, mas acredito muito na espiritualidade e admiro o que há de mais belo e comum em todas as religiões: o amor. Esta cirurgia também me ajudou a entender a importância do amor, e foi com ele que fui me tratando dali por diante.
Passei a rezar mais; falar mais com Deus; passei também a agradecer e a pedir minhas vontades… Passei a levar mais a sério o que realmente era importante: o amor ao próximo, o amor com tudo!

Koxa na igreja de NAZARÉ, Portugal.


Alinhei e agradeci essa aceitação com ininterruptas sessões de fisioterapia com o Marquinhos no Guarujá.
Após 2 meses da cirurgia, em abril de 2016, consegui voltar ao surf, e mesmo com meu ombro ainda comprometido, se exposto a impactos e movimentos bruscos, eu sentia que estava melhorando… Meu corpo progredia e, principalmente, minha mente estava se aquietando. Eu estava ficando mais leve e tudo parecia progredir…
Logo fui liberado da fisioterapia do Marquinhos e promovido para os treinos físicos com meu personal Carlos Brandão, que desenvolveu treinamentos irados específicos para minha recuperação gradativa dentro da Flex Academia.
Entendi que me tornei refém dos treinos para estar sempre forte principalmente nas regiões que já apresentavam suas avarias. Essa consciência corporal foi um dos maiores presentes que ganhei nessa fase.

Em julho de 2016 eu já estava surfando os swells de Maresias com minhas guns para treinar a remada. No frio do nosso inverno, haviam horas que meu ombro não doía, mas em outros momentos eu sentia um tremendo desconforto.
Até que chegou a temporada de Nazaré, e pela primeira vez me programei para essa viagem sem acompanhar um swell. Compramos a passagem para o dia 24 de outubro com um mês de antecedência, no intuito de chegar para treinar e sentir como eu iria reagir.
Eu continuava pedindo para que Deus nos guiasse da melhor forma, e aconteceu até algo engraçado… Eu que sempre viajava 1 dia antes do swell para surfar as bombas pelo mundo, desta vez, quando chegou 1 semana antes do meu voo, apareceu um big swell para Nazaré, exatamente 1 dias antes da minha chegada em Portugal. Aceitei.
Se foi uma mensagem não sei, mas eu estava chegando depois de todos pegarem altas. Não sei como, mas mesmo assim eu estava em paz. Seria esse um teste para o meu ego?
A verdade é que eu estava diferente, percebia que aquela leveza que havia trabalhado durante o último ano estava fazendo muito bem para mim. Antes de eu voltar a pensar em surfar qualquer onda grande, eu estava evoluindo, pessoalmente, fora da água.
Surfei durante minha temporada toda em 2016. No começo bem receoso, mas fui numa crescente e de repente meu ombro já não doía mais.

Surf no inside de Nazaré, nov 2016. Foto: Manuel Ricardo

 
 Meu consciente ainda estava preocupado com ele, mas dia a dia fui me esquecendo e colocando este problema no esquecimento…

Durante o tempo que passei em Nazaré, alguns swells grandes aconteceram, mas nenhum gigante. 

Em minha ultima semana, foi super gratificante ter sido homenageado pelo prefeito de Nazaré, com uma placa com meu nome dentro do museu do farol. Uma honra ter minha prancha e essa placa eternizada dentro desse farol de Nazare. 

YEAHH 
Obrigado NAZARÉ!!!!

Rodrigo KOXA homenageado pelo prefeito de Nazaré Walter com uma placa no museu de Nazaré.

Voltei para o Brasil no meio de dezembro muito contente e empolgado de ter restabelecido novamente uma confiança naqueles mares e pronto para aguardar um swell gigante.
O ano de 2017 começou e eu estava ainda mais psico nos treinos. Surfando muito instigado no GUARUJA.  

Rodrigo KOXA voltando no ritmo surf progressivo em 2017 na praia do São Pedro, GUARUJA. Foto: Aline Cacozzi


Cheguei até a emagrecer 5 quilos, que me fizeram lembrar de quando eu era bem mais novo. 

KOXA na academia FLEX- 2017

Esta era a colheita de todo meu comprometimento com meu personal.  

Sentindo essa boa fase de novos fluidos e gratidão ao aprendizado, chegou, junto com o carnaval, uma previsão gigantesca para Nazaré. Embora o vento fosse o fator duvidoso da previsão, em meio de uma atualização e outra, ele perdeu a intensidade e ficou apenas com 6 nós de maral, foi quando não hesitei e agilizei logo a passagem para enfim, chegar um 1 dias antes do swell.

Previsão em mapa do oceano Atlântico Norte com um núcleo de swell gigantesco para Carnaval Nazareno 2017


Ainda no Brasil, vendo a previsão gigantesca, mas com a qualidade questionável, eu não sei como, mas estava mais tranquilo do que anos atrás, quando era frequente o meu ritmo frenético com as bombas. E esta tranquilidade me fazia sentir pronto. Físico e mentalmente preparado. Acreditei que teríamos um bom momento durante o dia do swell e que, depois do trabalho árduo que fiz durante estes últimos tempos, eu estava pronto para vivenciar a mágica Nazaré gigante outra vez.
Yeahhh!!! Meu voo era para embarcar no domingo, e o swell seria terça e quarta feira de carnaval.

De repente, no sábado, a previsão piorou. O vento, que na sexta feira estava entre 6 a 8 nós, passou para 15 a 16 nós maral, e nestas condições, o surf poderia ser muito prejudicado.

Por outro lado, minha passagem estava comprada e minha expectativa para reviver Nazaré estavam lá em cima. 

 

Não tive dúvidas, pedi para Deus me guiar e me conectar com o que fosse melhor para mim. Com este sentimento, embarquei para Portugal no domingo rumo ao swell histórico de carnaval.

No dia do swell, a terça feira amanheceu muito feia. O vento maral estava fortíssimo e picos de chuva forte nos faziam questionar sobre se rolaria ou não o surf naquele dia. Só uma mudança drástica poderia salvar o nosso cenário.

Às 9:40 hrs o tempo fechou, e como um tufão junto a uma chuva forte aquele ambiente me desanimou ainda mais. Entretanto, depois que a chuva acalmou, o vento foi diminuindo, e esta nova perspectiva animou a mim e a minha equipe, para partirmos rumo ao mar rapidamente.

Contudo, este rapidamente levou um tempo, e foi neste intervalo que uma chuva forte caiu novamente. Eu já estava no jet ski a caminho do outside e a visibilidade estava muito prejudicada. Nesse momento toda galera que estava no mar, passou por nós, indo embora, e o Garrett disse que o mar havia piorado e que o italiano Francisco Porcella havia surfado uma onda mutante bem naquele momento rápido que o vento acalmou.

Italiano Francisco Porcella na maior onda do dia. FOTO: Pedro Miranda


Depois que a chuva forte passou, eu que já estava no outside, esperei por aquele bom momento em que o vento diminuísse, como ocorreu anteriormente, mas este momento nunca chegou. Esperei das 12 às 15:30 horas e nada.

O tempo que eu me parceiro Sergio Cosme tentamos surfar na corda foi tão horrível que preferimos abortar o surf e escolhemos admirar a natureza bem de pertinho, vivenciando aquele espetáculo.

Mesmo me sentindo privilegiado por poder viver aquele momento, eu não poderia deixar de me questionar o porquê daquela situação. Opa, eu sabia que não podia reclamar de forma alguma… Então olhei para o céu, agradeci a Deus e disse a ele que sim, eu aceitava a sua vontade, e mais, que sua vontade seria também a minha, pois eu estava ali para confiar e ser feliz.

Também, pelo tamanho do swell e estudando bem a previsão, eu tinha certeza que teria uma nova oportunidade na manhã do dia seguinte com o vento terral que acaba deixando a onda mais em pé.

Então, Yeahh!!! Vamos com esta nova estratégia.  

Acordamos super cedo na manhã do dia 01 de março e fomos rapidamente para o mar. O plano era ficar esperando as maiores ondas que viessem no primeiro pico, onde a esquerda é bem maior por vir direto do canhão, encostada ao desfiladeiro.

Rodrigo KOXA em sua primeira bomba do swell do carnaval, puxado por Sergio Cosme. FOTO: Pedro Miranda

Foi seguindo este protocolo que fui presenteado pelo meu Deus. Eu queria, pedi, eu vivi novamente momentos que só eu sei o quanto eram importantes para mim.

Rodrigo KOXA numa bomba de direita. FOTO: Pedro Miranda

 

Agora eu espero estar me instigando novamente, pois essas foram as melhores ondas que surfei nos últimos 2 anos. 


​​Minha prancha estava incrível assim como a irmandade de toda a nossa equipe.

Esse canhão da Nazaré me ensinou muito na vida. Lá passei muitos momentos irados, muitos momentos difíceis, momentos de alegria em total conexão com minha alma e momentos de medo e dúvidas que me obrigaram a me transformar. Mas, o amor que sinto em estar sempre nesse contato com o oceano torna tudo mais prazeroso.
Hoje eu estou em paz com o meu coração e continuo com o sentimento de total respeito por ti, Nazaré. Percebo como realmente amo surfar essas ondas e, analisando a ambivalência de sentimos que vivi nesses dias, no caso, como fiquei chateado de não ter encontrado um momento favorável de surf num dia, e como eu estava eufórico, feliz e super conectado com minha alma no outro, entendo que tudo tem um propósito e um sentido.  

Rodrigo KOXA swell de carvão 2017. Foto: Jorge Leal “POLVO”


 Acredito ter reacendido uma chama que estava meio apagada dentro de mim, em meio à duvidas e desconfianças. O que me ficou mais claro depois deste carnaval em Nazaré foi que não posso fugir do que eu mais gosto de fazer na vida. 

O autoconhecimento nos permite perceber que quando não fazemos o que nossa Alma pede, nos magoamos interiormente…

De fato, Nazaré não para, e muitos outros swells GIGANTES virão para que possamos nos superar novamente, e assim espero que aconteça…


Obrigado a DEUS, ao meu parceiro Sergio Cosme, e a minha mulher psicóloga Aline Cacozzi, que me conhecendo melhor do que ninguém me ajuda de forma ímpar. 

Parabéns para todos os surfistas presentes e em especial para a galera do BRASIL que puxou totalmente o limite e representaram muito, Salve Alemão de Maresias, Pedro Scooby, Lucas Chumbinho, Pato, Maya e Marcelo Luna. YEAHHHH!!!! FELIZ e sempre aprendendo é o meu lema… #GoBIGGER

Obrigado especial ao DUDU “Tent Beach” que está proporcionando essa últimas viagens. 
 Foto: Dudu, Rafael Tapia, Luna, Alemao de Maresias e Rodrigo KOXA. 


NOIXX #KoxaBOMB💣 #TravelAce #Bullys #Akiwas #SilverSurf #SPO #DelirioNatural #FlexAcademiaGuaruja 🙏🏼
YEAHHH Tks God!!!

DEUS NO COMANDO

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